Sentada no colo da mãe, com as lagoas fundas, os olhos. Sobre esta água, sobre a sua imobilidade obscura e cintilante, todos os dardos que querem decifrar um destino falham o alvo.
O dia amanheceu branco, de uma névoa doce e traz crianças que se penduram nas árvores, agora silenciosas, segurando-se pelas pernas, balouçando-se como animais degolados.
Haveria uma
pausa, como outrora.
E tempos recorrentes, ou a sua mágoa.
No colo da mãe, ela procura decifrar os da
rdos de um olhar de alarme, recolhendo-se a refúgio no centro fundo. Pergunta a si própria qual o pensamento do homem que transporta o
saco de viagem, de rugas como alinhavos, mas não obtêm resposta.
Outros acontecimentos arrumam-se de uma forma sinóptica, não em duração, como se certas possibilidades tivessem sido experimentadas e logo deixadas ao abandono. Armado de navalha, um veio ao sítio íntimo, mas a dúvida sobre o que há de irremediável no seu aparecimento nunca será resolvida e sustém-se no que até então fora um
jardim, um cantante.
Alguns oferecem murmúrios alados, murmúrios.
O casal de reformados ingleses desloca-se de táxi para uma casa na montanha, fugindo do clima húmido de cidade do norte. A sua deslocação, su
rgida no passado como desejo banal, não cessa de se afirmar.
Desvia o olhar.
Uma pausa impõe-se como cortina, o véu acariciador e há um lugar vasto, um que perdeu os seus contornos, esgotante. Terra de água e luz em que as portas se abrem, os pátios, fundas lagoas.
1/9/2002