Na nós una da ferocidade há a faca atravessando o lago e o incêndio do automóvel coroado pela treva.
Cadáver sentado na cadeira aberta ao farol árido.
Estes não são os passos do cão gracioso.
Quem esteve, viu a nuvem a limar os pés, oco da vara pela nuca fora, para lá do arame reticular, além da voz emudecida, além dos dentes cauterizados pelo refluxo, grito agónico afogado, fumo.

6/11/2002

O homem empunha uma máquina para filmar o crepúsculo. Ele apressa-se sobre a plataforma virada a ocidente, defrontando a última luz rosada nas nuvens de saias. O homem ouviu falar no neutrino do tau e traz uma ferida nos lábios, dum espinho da roseira brava.

3/11/2002

Uma noite que transportava um cesto de figos e um avião no alto. Nela eu via a prece que estava no basalto, longamente na espera e na âncora.
Ignoras como um ourives em plena decepção.
Ignoras ainda mais.
No seu voo de mosca um ardor cobra o plácido domínio. Palavras como inseminação ou a vela intravenosa, asfodelos, campânula.
O que ali esteve.

O cartógrafo renegado

Ignoras como um ourives

9/10/2002

A água da última noite são espelhos abandonados no parque. Transeuntes deixam um fugaz reflexo sob as árvores à luz. Sobre o muro branco escreveram a palavra. Mar. Conheci quem recolhia estes fragmentos, juntava-os por instantes sob o sol até que o canto das aves se interpunha e de novo os dispersava. Uma mulher jovem empurra o carro com o menino, ela tem um tubo na saia azul, que a liga ao centro do astro distante. Mar.

8/10/2002

Há uma montanha de neve, alva e fria, que não é o último refúgio. Vento contra os poros num olhar de outrora, insânia. Uma luz abre-se, bondosos olhos, um cobertor. O taxista ofereceu um préstimo que vale mais que o ouro. Tem um irmão que vive na balança e ele vive no irmão; não uma lata de salsichas no monturo, mas a luminosa, a lâmina.

1/10/2002

Sentada no colo da mãe, com as lagoas fundas, os olhos. Sobre esta água, sobre a sua imobilidade obscura e cintilante, todos os dardos que querem decifrar um destino falham o alvo.
O dia amanheceu branco, de uma névoa doce e traz crianças que se penduram nas árvores, agora silenciosas, segurando-se pelas pernas, balouçando-se como animais degolados.
Haveria uma pausa, como outrora.
E tempos recorrentes, ou a sua mágoa.
No colo da mãe, ela procura decifrar os dardos de um olhar de alarme, recolhendo-se a refúgio no centro fundo. Pergunta a si própria qual o pensamento do homem que transporta o saco de viagem, de rugas como alinhavos, mas não obtêm resposta.
Outros acontecimentos arrumam-se de uma forma sinóptica, não em duração, como se certas possibilidades tivessem sido experimentadas e logo deixadas ao abandono. Armado de navalha, um veio ao sítio íntimo, mas a dúvida sobre o que há de irremediável no seu aparecimento nunca será resolvida e sustém-se no que até então fora um jardim, um cantante.
Alguns oferecem murmúrios alados, murmúrios.
O casal de reformados ingleses desloca-se de táxi para uma casa na montanha, fugindo do clima húmido de cidade do norte. A sua deslocação, surgida no passado como desejo banal, não cessa de se afirmar.
Desvia o olhar.
Uma pausa impõe-se como cortina, o véu acariciador e há um lugar vasto, um que perdeu os seus contornos, esgotante. Terra de água e luz em que as portas se abrem, os pátios, fundas lagoas.

1/9/2002

O canto antigo da cigana antiga vai como um zangão.
E a manhã de verão com lágrimas boas.

19/8/2002